PARDITUDE: A MOSCA QUE POUSOU NA SOPA DO MOVIMENTO NEGRO

Por Maíra Bras Costa Terlizzi*

Desde o advento do Estatuto da Igualdade Racial, em 2010, o governo brasileiro tem adotado o entendimento de que a população negra é composta pela somatória de pardos e pretos. Esse entendimento é fruto de uma articulação política dos movimentos negros que buscavam a implantação de políticas afirmativas, entre elas a mais conhecida e debatida é a política de cotas raciais nas universidades públicas. Ato seguido, anos depois, são implementadas as bancas de heteroidentificação para impedir fraudes no processo de acesso às cotas raciais.

Contudo, o que era uma mera medida administrativa acabou se tornando uma espécie de parâmetro de negritude, nas redes sociais chega a circular que as bancas são um doloroso chá revelação de identidade racial para muitos pardos que são desclassificados por não serem negros o suficiente para acessar essas políticas. Assim surgem os questionamentos: quem é negro no Brasil? Todo pardo é negro? Na esteira dessas discussões, surge na internet o projeto Parditude, idealizado pela jovem pesquisadora Beatriz Bueno. Trata-se de uma página no Instagram em que ela divulga sua pesquisa, leituras e posicionamentos, defendendo que nem todo pardo é negro e que essa categoria racial é autônoma da identidade negra, além
disso traz para a discussão o apagamento da ancestralidade indígena da população brasileira, que é muito marcante na região norte do Brasil.

O projeto e as declarações de Beatriz Bueno têm incomodado conhecidos militantes do movimento negro na internet, prova disso é que alguns deles gravam vídeos contestando os posicionamentos do projeto Partitude, por outro lado nos comentários das páginas muitos pardos manifestam seu apoio à pesquisadora e relatam o sentimento comum de não lugar racial por serem pardos. Num momento em que, segundo pesquisa do Datafolha, 60% dos pardos não se consideram negros, parece que a engenharia política do movimento negro de quer olhar um país multirracial pela ótica birracial está fazendo água. Tem mosca caindo na sopa.

* É Doutora em Linguística e Professora do Curso de Letras da Universidade do Estado de Mato Grosso – câmpus de Alto Araguaia.

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