O COMPROMISSO ÉTICO DO JORNALISMO: UMA LINHA TÊNUE

Por Camila Silva Lopes *

jornalismo, como qualquer outro campo profissional, possui suas normas e seus códigos de conduta. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros contém 19 artigos, que vão desde o direito à informação até a conduta profissional que deve ser seguida.

“O jornalismo é a arte de conectar as pessoas ao mundo.”

Segundo o Art. 1º, no Capítulo I, o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange o direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação. No entanto, muitos profissionais consideram apenas esse artigo e ignoram os demais, esquecendo que todos compõem um conjunto ético indissociável.

A profissão exige, acima de tudo, grande responsabilidade. O jornalista tem como compromisso fundamental a verdade no relato dos fatos, razão pela qual deve pautar seu trabalho na apuração precisa e na divulgação correta das informações, conforme o Art. 4º do Código. Porém, dizer a verdade não significa divulgar tudo, muito menos de forma explícita — especialmente no que diz respeito ao uso de imagens, como vem ocorrendo com frequência nos últimos anos.

Não é de hoje que imagens mórbidas são exibidas de forma evidente em sites jornalísticos e telejornais. Imagine ligar sua televisão na hora do almoço e se deparar com a imagem de uma pessoa acidentada, ferida gravemente, sendo mostrada ao vivo, sem qualquer filtro ou aviso? Isso ultrapassa diversos limites — principalmente os éticos. Não se deve divulgar informações de caráter sensacionalista, mórbido ou contrárias aos valores humanos, especialmente em coberturas de crimes e acidentes. Ainda assim, esse tipo de conduta tem se tornado comum.

Caso Juliene

Juliene Anunciação Gonçalves, de 22 anos, foi encontrada pendurada e nua em um campo de futebol no bairro CPA III, em Cuiabá. O crime ocorreu em 2012 e choca não apenas pela brutalidade do assassinato, mas pela forma antiética com que foi coberto por parte da imprensa. As imagens da jovem foram publicadas sem nenhum tipo de censura ou borrão, o que levou ao compartilhamento das cenas por todo o estado. O caso de Juliene é um dos principais exemplos da falta de ética no jornalismo mato-grossense, violando diversos artigos do Código de Ética.

.Foto reprodução: Gazeta MT

A busca desenfreada por cliques fez com que esses sites e jornalistas pensassem apenas em benefício próprio. Não houve respeito pela vítima, nem por sua família. Também não houve compromisso com a profissão ou com a responsabilidade social que ela exige. Entre os principais artigos violados estão:

Art. 6º – que afirma ser dever do jornalista respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;

Art. 11º – que proíbe a divulgação de informações de caráter mórbido, sensacionalista ou contrárias aos valores humanos, especialmente em coberturas de crimes e acidentes.

No jornalismo, há uma linha tênue que precisa ser respeitada. Como mencionado anteriormente, a verdade nos fatos deve prevalecer, mas a forma como ela é divulgada importa. Não se pode sair publicando tudo de forma descontrolada, atropelando os direitos humanos, a privacidade e a dignidade das pessoas envolvidas.

Uma frase que deve ser sempre lembrada é a do jornalista e escritor Gabriel García Márquez:

“A ética deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro.”

* Estudante do sétimo semestre de Jornalismo da UNEMAT.

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