A COBERTURA DE NOTICIAS DE VIOLÊNCIA SEXUAL  NO SITE “TANGARÁ EM FOCO”

Por  Victor Hugo Moreira do Nascimento


Nas sociedades do século XXI, a comunicação é entendida como um pilar fundamental e o jornalismo se faz a parte principal desse processo cumprindo o papel social de informar a população de maneira ética e responsável. Contudo, isso não quer dizer que é feito dessa maneira, para atrair audiência do público alguns veículos que se caracterizam como noticiosos utilizam de práticas questionáveis para produzir essas noticias.

Tendo em vista essas particularidades em alguns veículos de comunicação, foram selecionadas quatro notícias com a temática de violência sexual contra mulheres e crianças do veículo Tangara em foco para serem analisadas com o foco em infrações éticas e aspectos de sensacionalismo na construção da notícia.

VEÍCULO E O FAZER JORNALISTICO

Disseminar informações com  ética é um dever do veículo de comunicação. “Dentro dessa regra mercadológica, os jornais destinados às classes populares são aqueles que buscam a atenção de todas as classes de leitores (especialmente as classes de baixa renda e baixo nível cultural, classe C para baixo), baseiam a sua receita principalmente na vendagem de exemplares avulsa e desprezam uma linha editorial que preza pela seriedade e sobriedade” (Longhi, 2006).

O jornal analisado não se faz diferente, com manchetes apelativas ao acontecimento e uso de linguagem e detalhes invasivos sobre a vítima, o Tangará em foco atraí seus leitores. A principal promoção das duas notícias é por mídia social. No

Facebook a página do tem 67 mil seguidores e no Instagram 31 mil. Ambas se intitulam de páginas de jornalismo e noticias.

Dentre as noticias analisadas, foram observadas que nenhuma era assinada por um jornalista específico e sim por “redação Tangará em foco”, enquanto a fonte eram outros sites de notícia, com análise da fonte percebe-se que a apuração dos fatos é feita como release de outras mídias caracterizando uma apuração pobre.

ANALISE DA NOTÍCIAS

No presente trabalho, analisamos duas noticias (chamadas de N1 e N2), ambas com temática de violência sexual contra mulheres. Diante da análise, a metodologia utilizada foi análise de conteúdo a partir de três particularidades da construção da notícia. Primeiro o título, segundo a imagem e terceiro a narrativa da notícia.

Na primeira notícia analisada o título foi “Pai é preso suspeito de estuprar e engravidar filha com deficiência em Juína”.  Nesse título podemos análisar o uso de “deficiência” na construção do título, a reflexão acerca é a necessidade de construir uma aproximação de pena com a vítima. O sentimento construído vai além de empatia, destaca uma fragilidade atrativa para gerar maior revolta.

A imagem utilizada nessa notícia é da delegacia de Juína, embora não apelativa e levemente relacionada, a problemática observada é a mais comum percebida em veículos sensacionalistas, não informava origem, créditos ou data.


No corpo do texto, a narrativa construída, embora obedeça o lead, estrutura básica da produção noticiosa, é construída de forma sensacionalista e com linguagem desrepeitosa. Ainda no primeiro parágrafo da notícia, o veículo utiliza o termo  “deficiência mental”, alterado para deficiência intelectual pela Organização Mundial de Saúde – OMS em 2004.

Na narrativa do texto, o site atribuí informações a sujeitos indeterminados como “vizinhos que não queriam se comprometer” e expõem detalhes como reação da vítima a prisão do suspeito de cometer a violência, além de especulações como “a vítima não denuncia porque possui problemas mentais e acredita que é normal os atos cometidos pelo pai”.  Em resumo, a notícia é escrita sem cuidado, a fonte nomeada é outro site de mídia e sem obedecer princípios éticos básicos como pautar a principio a apuração presente no Art. 4º “O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação”.

Na segunda notícia analisada (N2), trata de uma violência cometida também entre familiares, agora de um filho contra uma mãe. O titulo” Menor estupra a própria mãe e usa saliva para “facilitar”, revelou vítima” começa a ser apelativa a atributos que causam reações emocionais, “A apresentação deve ser chocante, exigindo o envolvimento emocional do público (ANGRIMANI, 1995)”. E o veículo utiliza disso ao relacionar  detalhes específicos da violência com signos como “facilitar” “saliva”, para gerar emoção, ainda que negativa como raiva ou nojo, é uma maneira de utilizar a aversão ao crime para atrair leitores.

Na imagem N2 aparece uma sirene de polícia, novamente sem data, origem ou créditos a imagem, o ângulo é fechado e não aparece nenhum vestígio que permita identificar algo para relacionar imagem e o fato descrevido.

Na construção da notícia, o veículo traz detalhes perturbadores da ação do crime. Frases sobre os atos realizados pelo menor como  “o menor tirou sua bermuda e, ao ver que ela não usava calcinha, passou a tocar sua genitália e a estuprou”, “que o menor usou saliva para facilitar a penetração” e “só depois de muito esforço foi que conseguiu parar o menor e retirá-lo de cima de si, para que não ejaculasse dentro dela”.

            A narrativa utilizada pelo veículo é apelativa como uma história ficcional, quanto maior a quantidade de detalhes da violência e exploração da violência,  maior a atratividade da notícia pelo leitor e utilizando desse critério os veículo sensacionalistas constroem suas notícias para atrais maior quantidade de leitores.

CONCLUSÃO

O sensacionalismo é um recurso nefasto de veículos irresponsáveis. Utilizar dessa prática traí leitores, mas desrespeita vítimas das notícias, causa desconforto em leitores e principalmente fere diversos códigos de ética.

Segundo o código de ética da Federação Nacional de Jornalistas – FENAJ, em seu 11º artigo, o jornalista não pode divulgar informações “de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes”, o que é completamente o contrário das narrativas observadas nessas notícias.

Portanto, podemos observar que o sensacionalismo é um desafio ao fazer jornalístico, a integridade da profissão e fere o papel social dos profissionais de comunicação. É necessário combater essa prática e desvincular as inverdades do verdadeiro papel social do jornalismo, que é informar, educar e engajar a sociedade na promoção do bem estar coletivo.

REFERÊNCIAS

LONGHI, Naiara. Sensacionalismo e Jornalismo Popular: um estudo de caso. In: INTERCOM – SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS INTERDISCIPLINARES DA COMUNICAÇÃO XXVIII CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 2005, Rio de Janeiro. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. [S. l.: s. n.].

CÓDIGO de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Disponível em: https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2014/06/04-codigo_de_etica_dos_jornalistas_brasileiros.pdf. Acesso em: 4 dez. 2023.

TANGARÁ EM FOCO, Redação. Pai é preso suspeito de estuprar e engravidar filha com deficiência em Juína. 27 out. 2023. Disponível em: https://tangaraemfoco.com.br/2023/10/27/ pai-e-preso-suspeito-de-estuprar-e-engravidar-filha-com-deficiencia-em-juina.html. Acesso em: 3 dez. 2023.

TANGARÁ EM FOCO, Redação. Menor estupra a própria mãe e usa saliva para “facilitar”, revelou vítima. 9 nov. 2023. Disponível em: https://tangaraemfoco.com.br/2023/11/09/menor-estupra-a-propria-mae-e-usa-saliva-para-facilitar-revelou-vitima.html. Acesso em: 30 nov. 2023.

* Estudante do 7º semestre de Jornalismo da UNEMAT.

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