O EMBASAMENTO COM A VERDADE: ANÁLISE DA NOTÍCIA DE PARTICIPAÇÃO DO GOVERNADOR DE MATO GROSSO NA COP28

Por Lucas Santos de Oliveira*

Um viés editorial da mídia de massa se manifesta em conteúdos que apresentam exageros, com o objetivo de aumentar o número de leitores, recorrendo, frequentemente, a dois recursos: o sensacionalismo e a disseminação de fake news (embora estas não estejam presentes em todos os casos).

Fonte: midianews.com

Ao analisar o webjornal Mídia News, encontrei uma matéria com a seguinte manchete: “Enquanto países ricos consomem carvão, MT é potência ambiental”, referindo-se à participação e às falas futuras do governador de Mato Grosso, Mauro Mendes, durante a 28ª Conferência das Partes (COP 28). Afirmar que o estado de Mato Grosso é uma “potência ambiental”, como diz o título, contraria dados relevantes que revelam uma situação oposta. Por exemplo, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento na Amazônia Legal em território mato-grossense aumentou 8% em 2023, em comparação com o ano anterior. De acordo com os dados, o desmatamento em 2022 foi de 1.927 km², enquanto, em 2023, a área atingida já alcançava 2.086 km².

“É mais fácil falar da Amazônia brasileira. É mais fácil nos criticar, criticar o Brasil, criticar todos nós que estamos preservando mais de 60% do nosso território. Não podemos aceitar que o mundo aponte o dedo para nós, quando grande parte do mundo não está fazendo sua parte, principalmente os países desenvolvidos”, afirmou o governador Mauro Mendes. No entanto, a alegação de preservação entra em contradição com os dados apresentados, que revelam um avanço significativo do desmatamento e da expansão agrária no estado.

Esse cenário de desmatamento pode ser analisado a partir de duas linhas de discussão fundamentais para a humanidade:

1. Queimadas ilegais: No primeiro semestre de 2023, o estado registrou 8.344 focos de calor, representando um aumento de 10,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. O município com maior número de focos foi Feliz Natal, localizado a 512 km de Cuiabá, que também figura entre os principais alvos de investigações ambientais neste ano.

2. Clima: Durante o período das queimadas e da seca, as temperaturas no estado subiram drasticamente, chegando à máxima de 42°C na capital. Estudos apontam que esse aumento de temperatura está diretamente relacionado ao desmatamento agressivo que vem afetando a porção amazônica do território mato-grossense.

    Ao analisarmos outro trecho do discurso do governador, observamos mais uma contradição:
    “No Brasil hoje vivemos, de maneira muito clara, os efeitos dessas mudanças. Chuvas intensas no Sul, seca no Médio-Norte e no Norte do país. Teremos, neste ano, uma perda gigantesca na nossa safra por conta da mudança no ritmo das chuvas. Essa é uma realidade que está impactando o meu estado e impacta o planeta”, afirmou. Essa declaração reforça os efeitos prejudiciais das mudanças climáticas – diretamente ligadas ao desmatamento –, o que enfraquece ainda mais o discurso de que o estado estaria promovendo a preservação ambiental.

    Concluímos, portanto, que houve um exagero na afirmação de que o estado tem reduzido o desmatamento, e que a manchete do jornal apresenta um caráter sensacionalista e provocativo. Além disso, o próprio veículo de comunicação incorreu na violação de um dos princípios fundamentais do jornalismo: a veracidade e a precisão das informações. Isso fere o Art. 2º, §1º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que afirma:


    “A divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica – pública, estatal ou privada – e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.”


    A ausência de veracidade compromete o direito à informação do público, contribuindo para a formação de opiniões baseadas em argumentos frágeis e desinformados.

    REFERÊNCIAS

    PESSOA, Jana. “Enquanto países ricos consomem carvão, MT é potência ambiental”. Mídia News. Cuiabá, 2023. Disponível em: https://www.midianews.com.br/politica/enquanto-paises-ricos-consomem-carvao-mt-e-potencia-ambiental/458399. Acesso em: 4 dez. 2023.

    CAPOANE, Viviane. EXPANSÃO DA FRONTEIRA AGRÍCOLA NO ESTADO DE MATO GROSSO ENTRE OS ANOS DE 1988 E 2018. Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil, v. 1, f. 26, 2022. 26 p Trabalho de Conclusão de Curso (Geografia) – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2022.

    FERRO, Almir de Souza; DE VECHI, João Batista. CONTEXTUALIZAÇÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR EM MATO GROSSO: 2ª OFICINA DE CONCERTAÇÃO ESTADUAL DE MATO GROSSO. Embrapa. Sinop, Mato Grosso, 2014. Disponível em: https://www.embrapa.br/documents/1354377/2109296/Documento+base+ contextualiza%C3%87%C3%83O.pdf/247bf759-27f9-4b4e-afad-1aa6cabd18d4?version=1.0. Acesso em: 5 dez. 2023.

    FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS. Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Fenaj. 4 p. Disponível em: https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2014/06/04codigo_de_etica_dos_jornalistas_brasileiros. pdf. Acesso em: 4 dez. 2023.

    * Estudante de Jornalismo da UNEMAT, do sétimo período.

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