CAPOTAMENTO DE BMW EM CUIABÁ: SENSACIONALISMO OU INFORMAÇÃO RELEVANTE?

por Pâmela Cristina Pereira da Silva*

A notícia do capotamento de uma BMW no centro de Cuiabá, no último sábado, dia 02, apareceu em várias páginas de jornalismo na web com títulos como: “Homem capota BMW e defeca nas calças” ou “Motorista de BMW defeca nas calças e é preso”.

O uso da palavra “defecar” no título é o que chama a atenção do leitor, pois acidentes de trânsito acontecem quase que a todo momento em uma capital. Mas o que leva um jornalista a usar esse tipo de título sensacionalista?

Sabemos que as notícias sensacionalistas dão ao leitor o poder de se transportar até a cena do ocorrido. As pessoas gostam de cuidar da vida alheia, de ter a intimidade de outras pessoas exposta. Mas qual é o valor-notícia dessas matérias? Para escrever uma notícia, existem os critérios de noticiabilidade e um modelo clássico chamado pirâmide invertida: primeiro, apresenta-se a informação mais importante, e depois o texto vai se afunilando com dados considerados menos relevantes dentro dos acontecimentos.

https://www.oimpressomt.com.br/cidades/bebado-capota-carro-de-luxo-e-defeca-na-roupa-em-cuiaba/44007

No portal oimpressomt.com.br, temos no primeiro parágrafo as informações sobre o local do acidente, o número de pessoas envolvidas, as causas e as consequências do ocorrido:

“Um homem foi preso após causar um acidente de trânsito e desobedecer a polícia na noite deste sábado, 2, próximo à Praça Popular em Cuiabá. O condutor de um carro de luxo, do modelo BMW X6, bateu em três veículos antes de capotar e, devido ao susto, o homem defecou no shorts. Ele foi levado a uma pizzaria próxima para se limpar. A polícia tentou levá-lo à delegacia, mas ele resistiu e foi preso por desacato. Devido ao acidente, o homem apresentou lesão no olho esquerdo.”

O jornalista que escreveu essa notícia não teve o nome divulgado; no site, consta apenas como “da redação”, o que significa que alguém da equipe redacional produziu o texto e que o editor-chefe autorizou sua publicação. Mas o que podemos analisar é que a matéria foi claramente construída para gerar cliques, por trazer no título um detalhe que provoca espanto, riso ou curiosidade: o ato de alguém defecar nas próprias roupas, gerando uma situação inusitada e até mesmo cômica para alguns.

Voltamos à pergunta: qual o valor-notícia dessa matéria? Segundo o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros:

“II – A produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público.”

Se os fatos noticiados devem atender ao interesse público, qual é o interesse público desta notícia? Constranger uma pessoa, divulgando seu nome em diversos sites apenas para gerar material sensacionalista? Aqui, não estamos falando da acusação de dirigir embriagado – que, sim, é um problema sério. Estamos falando do foco desnecessário no vexame, na vergonha alheia, na exposição da intimidade de alguém que defecou após levar um susto durante um acidente. Esse detalhe é realmente mais importante do que conscientizar a população sobre os perigos de dirigir sob efeito de álcool?

E isso nos remete novamente ao Código de Ética, Capítulo II – Da conduta profissional do jornalista:

“VIII – Respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão.”

A pessoa mencionada na notícia acima merece ter sua intimidade respeitada. A matéria poderia, sim, ter sido publicada, mas o fato de o homem ter defecado nas calças poderia ter sido omitido, já que não tem nenhuma relevância informativa para o público. A não ser que estejamos falando de um público específico: o público da fofoca, do entretenimento vazio, aquele que consome esse tipo de conteúdo mais pelo escândalo do que pela informação.consome esse tipo de conteúdo mais pelo escândalo do que pela informação.lico especifico. O publico que gosta da fofoca o público que gosta do entretenimento.

*Aluna do sétimo período do curso de jornalismo da UNEMAT.

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